Feito de som: nos 12 anos em que viveu em Curitiba, Hermeto Pascoal deixou música até nas paredes

  • 01/10/2026
(Foto: Reprodução)
Nos 12 anos em que viveu em Curitiba, Hermeto Pascoal deixou música até nas paredes Em Curitiba, Hermeto Pascoal transformou a parede branca de um café em partitura. Alguns guardanapos também. Usou xícaras e conversas como matéria-prima para criar músicas que encantaram o mundo. Outras viraram presentes para os amigos mais próximos. Durante os 12 anos em que viveu na capital paranaense (de 2003 a 2015), o multi-instrumentista alagoano cultivou paixões, amizades e começou até a frequentar a academia. Um ano após a morte do músico, a cidade que Hermeto escolheu como lar guarda histórias dele. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp Figura significativa na história da música brasileira, Hermeto influenciou e mudou uma geração de músicos com uma obra que ignora as fronteiras entre o popular, o erudito e a experimentação. As lembranças de quem conviveu com ele revelam não apenas o gênio musical, mas também um homem curioso, afetuoso e imprevisível, que fez de Curitiba muito mais do que um endereço: um lugar de encontros, criação e conexões. Quando Hermeto encontrou Curitiba História da gaúcha Aline Morena com o alagoano Hermeto Pascoal começou a se desenhar no Paraná Arquivo Pessoal/Aline Morena Hermeto definiu a mudança do Rio de Janeiro para Curitiba em 2003, para facilitar a rotina de composições e ensaios com a parceira musical e romântica à época, a artista Aline Morena. A história entre a gaúcha e o alagoano começou a se desenhar no Paraná, no ano anterior à mudança, durante uma oficina de música ministrada por Hermeto em Londrina. Aline tinha 23 anos e tinha acabado de se mudar para Curitiba em busca de mais oportunidades na carreira artística. Em entrevista ao g1, ela contou que já era fã de Hermeto e, ao saber que o músico viria ao Paraná, não hesitou em participar do evento. "Ele começa o workshop assim: 'Eu quero ver quem tem coragem de ser o primeiro a subir no palco para fazer uma pergunta ou para fazer um som comigo'. Eu não pensei duas vezes e fui correndo", lembra. Aline não levou à oficina nenhum instrumento convencional. O que tinha em mãos quando subiu ao palco era um cano de PVC, que posicionou em frente ao microfone e usou para cantar versos musicados de uma poesia. Conhecendo a obra de Hermeto, ela sabia que um simples solo de piano poderia não ser o suficiente. Depois desse primeiro contato, Aline seguiu para Maringá, onde Hermeto se apresentaria no dia seguinte. Lá, conversou com o artista mais uma vez. Ele a convidou para improvisar ao seu lado no show. O desfecho do encontro foi um telefonema breve para os pais dela, avisando que embarcaria para o Rio de Janeiro ao lado do músico naquele mesmo dia. “Eu não conhecia ele pessoalmente, eu não sabia como ele era como ser humano. E aí, nessa oportunidade, acabei conhecendo mais. Quando eu percebi como ele era como ser humano, meu Deus do céu, aí que eu enlouqueci, porque tudo batia: as nossas ideias, o que a gente acreditava, como se fôssemos almas gêmeas. Era uma coisa muito incrível”, lembra a artista, hoje com 47 anos. Aline Morena tocando ao lado de Hermeto Pascoal Arquivo Pessoal/Aline Morena A viagem deu início a um relacionamento de mais de 10 anos e à formação de um duo musical. A mudança para Curitiba foi feita aos poucos, um instrumento por vez. "Em todas as formações, eu sempre participava e viajava com ele. E aí, como eu morava em Curitiba, ele acabou transferindo os instrumentos e as coisas para cá. E, quando chegou o piano, ele ficou definitivamente aqui", relembra Aline. Uma parede em branco e um convite irrecusável Hermeto Pascoal presenteou o amigo Claudio Tsuyoshi Ushiwata com uma partitura nomeada 'Nós e nós pra toda a vida' Arquivo Pessoal/Claudio Tsuyoshi Ushiwata Em Curitiba, Hermeto morava em Santa Felicidade, passeava pelo Centro e frequentava restaurantes onde, às vezes, era parado por fãs. O clima da cidade era favorável para ele. Por conta do albinismo, uma condição caracterizada pela ausência de melanina e que deixa a pele sem defesa natural contra o sol, a temperatura mais amena e dias mais nublados permitiam que aproveitasse mais os espaços ao ar livre. Na época em que morou na cidade, Hermeto até começou a frequentar a academia. "Ele sempre amou Curitiba, adorou viver aqui", conta Aline. Depois de um tempo, era quase certo encontrá-lo em uma cafeteria do Shopping Itália. O local se chamava Terra Verdi, por coincidência ou destino. Isso porque, de acordo com o proprietário, Claudio Tsuyoshi, a escolha do nome não teve relação alguma com a música "Terra Verde", lançada por Hermeto em 1979. Com a convivência, Claudio e Hermeto se tornaram amigos e o músico passou a fazer parte do Clube do Vinho que se encontrava no local. No café, nenhum objeto passava ileso na presença de Hermeto. O músico escrevia canções em guardanapos e sacas de café, tirava músicas das xícaras, pires e canecas. Foi em um dos encontros do clube que decidiu compor uma música de presente para Claudio. O proprietário até ofereceu papel ou cartolina, mas Hermeto achou uma boa ideia usar a parede branca como tela. "Ele pediu para riscar, para fazer a partitura. Eu não tinha régua, fui correndo num canto, tirei um pedaço de um rodapé e fiz a régua", lembra. Hermeto fez todo mundo participar do presente. Começou pedindo para que Claudio colocasse uma nota na partitura ainda em branco. “Eu falei: ‘Ó, Hermeto, nota eu conheço de R$ 100, de R$ 50, mas nota musical, não'. Ele falou: 'Põe uma nota, que é uma bolinha preta ou branca no risco ou no meio dele'. E eu, para ter certeza de que não ia errar, coloquei no meio. Ele falou: 'Isso aí é um si'. [...] Eu devolvi a caneta para ele. Tinha uma outra pessoa do meu lado e ele falou: 'Agora é ela que vai colocar uma nota'. E assim foi, todo mundo foi colocando as notas, todos os participantes daquele dia do clube." Claudio achava que o conjunto aleatório bagunçaria a música. Hermeto explicou: "Vocês mostraram o caminho. Agora eu vou continuar". A composição ganhou o nome de "Nós e nós pra toda a vida", e a parede desenhada por Hermeto virou ponto de encontro e de amizade. Em 2017, quando o espaço físico do Terra Verdi no Shopping Itália fechou, Claudio fez questão de preservar fisicamente o presente. "Eu tirei a parede e trouxe comigo. Está guardado e, em um dado momento, se houver oportunidade e a gente for abrir um novo espaço, vai estar em um lugar de destaque". Claudio Tsuyoshi Ushiwata e Hermeto Pascoal no antigo espaço físico do Terra Verdi Café Arquivo Pessoal/Claudio Tsuyoshi Ushiwata No café, era comum que admiradores o reconhecessem. Saíam de lá com um autógrafo, uma foto, uma conversa. Alguns, como o fotógrafo Walter Thoms, com boas histórias. Em 2011, Thoms trabalhava em um laboratório fotográfico no Centro da cidade e já tinha esbarrado com Hermeto algumas vezes. Um dia, enquanto almoçava no Terra Verdi, superou a timidez, abordou o músico e pediu um autógrafo. Depois de assinar um cartão de visitas retirado do bolso da camisa, Hermeto o convidou para tomar uma taça de vinho. "Eu argumentei, gaguejando, que não poderia, pois ainda tinha que retornar para trás do balcão no trabalho. Ele insistiu e repetiu que o vinho era incrível", conta. O convite irrecusável resultou no que Thoms descreve como "um teste de tolerância para o RH" do laboratório fotográfico em que trabalhava. "Cheguei atrasado no laboratório, com a minha camisa manchada de vinho, o que resultou numa advertência. Confesso que não lembro o gosto do vinho. Para mim, aquele momento foi uma fresta que se abriu no tempo e que não esqueço até hoje. Ora, quem era eu para não tomar aquela taça?", lembra. LEIA TAMBÉM: Cinema: Em Curitiba, Coppola foi penetra em festa de 15 anos, provou carne de onça, viu jogo do Athletico e deu palestra a estudantes Música: O dia em que Oasis tocou em 'palco desmontável em estacionamento' na Região Metropolitana de Curitiba Inspiração: Criado entre Tom Jobim, João Gilberto e Dorival, Danilo Caymmi encontrou a própria voz: 'Ousando você atinge as coisas' 'Nós somos pássaros também' O amigo Claudio, dono do Terra Verdi, guarda na memória, principalmente, a sensibilidade e a maneira singular como Hermeto entendia o mundo. "A gente conversou bastante sobre filosofia, psicologia... Eu aprendi bastante com ele." A criatividade ímpar foi a marca de Hermeto durante toda a carreira. E foi ainda criança que ele se apaixonou pelos sons da natureza e passou a ouvir música em tudo. "Para o Hermeto, tudo era música. Ele era um cara muito vanguarda. Essa visão muito ampla do que pode ser a música, como arte dos sons e não simplesmente aquilo que a gente normalmente considera: as notas musicais, as escalas... Ele transcendeu isso. Ele usava o ruído como forma de expressão musical. Por exemplo, o som das mãos, o som que ele fazia com a barba, outros sons que não são considerados musicais, e ele transformava em música. Isso é uma coisa bastante singular", detalha André Ricardo Souza, professor de música da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), compositor e pesquisador da relação entre música e linguagem. Para Aline, Hermeto "é 100% som". "Tudo é música para ele. Ele via os pássaros, ouvia os sons dos animais, das conversas, das pessoas andando na rua, dos carros, do avião. Isso é que inspirava ele a fazer música. Então, eu considero ele o maior retratista sonoro do mundo, porque ele consegue retratar tudo que existe em música", descreve. Hermeto reconhecia essa faceta do próprio trabalho, como contou em entrevista para a Rádio MEC, em janeiro de 1997. "Eu me inspiro mais nas outras coisas para fazer música. Eu me inspiro na pintura, no timbre de uma voz. [...] Na minha concepção, o cantar de cada um de nós é o que chamamos de fala. Assim como os pássaros. Nós somos pássaros também", disse. O pesquisador André Ricardo Souza destaca que a obra de Hermeto desafia qualquer tipo de classificação. Nasce daí o conceito de Música Universal, criado e defendido pelo multi-instrumentista. "O negócio dele era explorar todas as possibilidades do som. A Música Universal seria isso: não tem nenhuma restrição de estilo. São poucos artistas que conseguem fazer isso. O Hermeto também via o Brasil como uma fonte inesgotável de inspiração pela cultura. Basta ouvir os temas dele: ele está ali fazendo uma coisa que parece um jazz, daqui a pouco vira um baião, aí se transforma em outra coisa. Não existem fronteiras para a música dele", aponta. Para cada amigo, uma música A música inclassificável de Hermeto chamou a atenção do também músico Guego Favetti, que conheceu o trabalho de Hermeto nos anos 70. "Fiquei louco, encantado. Eu morava no interior e vim para cá [Curitiba] buscar um disco dele". Anos depois, em 2004, quando já morava na capital, Guego recebeu um convite do amigo Ivanir Bortot, jornalista e diretor da Gazeta Mercantil, para fazer uma entrevista com o multi-instrumentista. A conversa, prevista para durar duas horas, se estendeu por oito. Surgiu ali um projeto: criar, junto com Hermeto, uma escola de música em Curitiba. Os primeiros passos até foram dados – foram atrás de um lugar físico, abriram um CNPJ da Escola de Música Universal Hermeto Pascoal –, mas a burocracia emperrou a ambição. Outro sonho de Guego era incluir as lições de Hermeto no conteúdo programático das aulas de Artes para crianças do Ensino Fundamental público da cidade. Ele acredita que, se as ideias tivessem sido efetivadas, poderiam ter transformado Curitiba em um polo da música experimental, como Joinville é para o balé, com o Teatro Bolshoi. Guego e Hermeto Pascoal se conheceram após convite de Ivanir Bortot para uma entrevista Arquivo Pessoal/Guego Favetti Assim como Guego, o percussionista Márcio Rosa acredita que Curitiba poderia ter aproveitado melhor a presença de Hermeto na cidade. "Faltou uma valorização mesmo. Poderiam ter feito várias coisas com ele, sabe?" Pessoalmente, Márcio não pode dizer o mesmo, porque, desde que conheceu Hermeto, aproveitou todas as oportunidades que teve para aprender com ele. A convivência fez o percussionista mudar a forma como se relacionava com a música. Para ele, tocar com Hermeto era uma tarefa solta e livre, quase como uma dança ou uma luta de espadas. "Quando ele tocava, a cor do lugar mudava. Ele é uma presença poderosa, a presença dele é magnética", descreve. Enquanto Márcio tocava em um projeto com Aline, ele e Hermeto se aproximaram. Os ensaios eram embalados por conversas, cafés e um clima de liberdade para improvisar. Foi em um desses ensaios que Hermeto presenteou Márcio com uma música, que foi gravada pelo amigo em 2019, com o nome "Para Márcio Rosa". O presente surgiu depois de uma brincadeira: Márcio tinha tirado a pele do bumbo para não fazer barulho durante a gravação de uma entrevista e brincou com Hermeto: "Eu vou vender essa bateria. Se você assinar, eu posso pedir uns R$ 200 a mais". Ele conta que Hermeto voltou com o bumbo todo rabiscado, com uma composição. "Naquele momento, o meu pé derreteu. Me deu uma emoção que eu não sabia o que fazer. Me veio um choro lá da planta do meu pé. Eu olhei e falei: 'Caraca, o cara fez uma música para mim. Hermeto, que estilo que é? Eu quero gravar'. Ele falou assim: 'O estilo é teu. Veja aí o que você quer fazer'", relembra Márcio. Hermeto Pascoal presentou o percurssionista Márcio Rosa com uma partitura Arquivo Pessoal/Márcio Rosa Márcio lembra que Hermeto "toda hora estava rabiscando alguma coisa". E era assim que presenteava as pessoas que amava. Além de Márcio e Claudio, Aline também virou música para Hermeto – ganhou do companheiro um livro com 200 composições dedicadas a ela. Para Ilza Souza Silva, mãe dos seus seis filhos e sua companheira de 1954 a 2000, Hermeto guardou a homenagem final, no último disco lançado por ele antes de morrer, chamado "Pra Você, Ilza". Como uma amiga, a cidade de Curitiba também ganhou presentes do alagoano. Além de "Canção no paiol em Curitiba", composta em 1992, Aline conta que, enquanto moravam juntos, Hermeto escrevia uma música para cada aniversário da cidade. "Essas músicas estão nos arquivos dele. Um dia as pessoas vão conhecer, porque é tanta música nova. Tem umas 9 mil músicas que são desconhecidas ainda". Hermeto no tempo presente Hermeto Pascoal (1936 – 2025) deixa obra inclassificável ao morrer aos 89 anos no Rio de Janeiro (RJ) Gabriel Quintão / Divulgação O músico viveu em Curitiba por 12 anos. Foi após o fim do relacionamento amoroso com Aline que ele deixou a capital paranaense, em 2015. A amizade e a parceria musical dos dois, porém, nunca acabaram. Hermeto partiu em setembro de 2025, aos 89 anos, no Rio de Janeiro, cercado pela família e por companheiros de música. Segundo publicação nas redes do artista, ele partiu enquanto seu grupo se apresentava no palco. A maioria dos amigos ouvidos pelo g1 fala de Hermeto no tempo presente: "Hermeto é, Hermeto faz, Hermeto gosta...". Para quem o conheceu e aprecia sua obra, é como se ele nunca tivesse partido. "Sempre é bom falar dele. Ele foi bastante solidário quando eu perdi meu pai. Eu comentei com ele que, na nossa filosofia, a gente morre duas vezes: uma é quando o corpo se desprende e a outra quando param de falar de nós. Ele falava: 'Você está certo mesmo'. Daí ele deixou bastante história. Então é um prazer estar falando dele", compartilha Claudio. VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Paraná.

FONTE: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2026/10/01/feito-de-som-nos-12-anos-em-que-viveu-em-curitiba-hermeto-pascoal-deixou-musica-ate-nas-paredes.ghtml


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