Mais mulheres denunciam médico ginecologista de 81 anos por abusos sexuais em atendimentos, no Paraná: 'Não falaram antes por medo'
17/04/2026
(Foto: Reprodução) Mais mulheres denunciam médico ginecologista de 81 anos por abusos sexuais em atendimentos
Após a divulgação da notícia que o médico ginecologista Felipe Lucas, de 81 anos, foi acusado de cometer crime sexual contra uma paciente em Irati, na região central do Paraná, mais duas mulheres procuraram a polícia para relatar que também foram vítimas do homem. As informações são do delegado Luis Henrique Dobrychtop.
Segundo o policial, as duas deram depoimentos semelhantes ao da primeira vítima, e disseram ter se encorajado a denunciar após verem que o médico se tornou réu na Justiça pelo crime de violação sexual mediante fraude.
"Ambas disseram que não procuraram a polícia antes por medo da influência política do autor. Antes achavam que não ia dar em nada se registrassem a ocorrência, mas agora viram que deveriam ter relatado antes", explica o delegado.
Felipe Lucas é ex-deputado estadual, ex-prefeito e ex-vereador de Irati.
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Em 2024, médico foi homenageado pelo CRM-PR por completar 50 anos de profissão
CRM
Para o delegado, os novos relatos corroboram a investigação inicial e indicam "um padrão de comportamento ao longo de décadas".
Dobrychtop considera que o profissional se aproveitou da posição de confiança para praticar atos libidinosos e tentou enganar as vítimas usando supostos procedimentos clínicos como pretexto para os abusos.
"A primeira vítima relatou que, durante o exame, o médico realizou massagens íntimas, alegando ser uma orientação para o estímulo da libido — uma conduta que, segundo especialistas, não tem nenhum respaldo na medicina", afirma o delegado.
Após a primeira acusação vir à tona, a defesa de Felipe Lucas disse que ele "nega veementemente" qualquer prática irregular ou conduta indevida durante o atendimento.
O g1 questionou os advogados sobre as novas denúncias. Em uma nova nota, enviada nesta sexta-feira (17), a defesa negou novamente os crimes e afirmou que há um "esforço coordenado para manchar a reputação de um médico com mais de 50 anos de profissão e que já atendeu mais de 25 mil pacientes".
"O Dr. Felipe jamais praticou qualquer tipo de crime sexual ao longo de toda a sua carreira profissional. As duas pessoas que vêm o acusar foram sempre atendidas com o acompanhamento de uma auxiliar da área de saúde. Ressaltamos que o Dr. Felipe não está respondendo por nenhum novo caso. Todas as calúnias feitas contra a honra do Dr. Felipe serão objeto das medidas judiciais cabíveis", diz a nota.
Navegue por esta reportagem:
O que dizem as novas vítimas
Primeira denúncia foi feita sete dias depois do atendimento
Como foram as investigações do primeiro caso
Médico também já foi político
O que dizem os envolvidos
Médico ginecologista é acusado de abusar de paciente durante atendimento
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O que dizem as novas vítimas
Segundo o delegado Luis Henrique Dobrychtop, uma das mulheres relatou que sofreu o abuso em 2011 e, a outra, em 2016. Veja o que diz o policial:
"Uma delas chegou a relatar que o médico havia tocado as suas partes íntimas durante cerca de 5 minutos, de forma ininterrupta, massageando de uma forma totalmente inusitada e contrária aos protocolos clínicos, visto que a vítima já havia sido submetida a exames ginecológicos com outros profissionais anteriormente e que, imediatamente ao notar a chegada de outro profissional no recinto, ele acabou mudando bruscamente seu comportamento, tendo cessado o exame"
"A outra vítima relatou que durante um exame pré-natal foram realizados cerca de 10 'exames de toque' em sua área vaginal com periodicidade no máximo 10, 15 minutos, sendo que em determinado momento a vítima falou para esse médico que não suportava mais as dores na área vaginal, porém o médico insistia em continuar"
Para o delegado, a convergência de detalhes nos relatos de vítimas - que não possuem vínculos entre si - é um elemento determinante para a investigação por demonstrar que "não se tratam de fatos isolados, mas de uma conduta mantida por anos sob o manto da autoridade médica".
Os novos relatos vão constar no processo atual para corroborar a palavra da vítima, mas não poderão render novos processos devido à quando aconteceram.
"Na época, os crimes contra a dignidade sexual eram, em regra, de ação penal pública condicionada à representação da vítima, e esta tinha o prazo de seis meses a contar da data do conhecimento da autoria para representar criminalmente. Essa natureza jurídica só foi alterada para ação pública incondicionada com a vigência da Lei nº 13.718/2018, que alterou o art. 225 do Código Penal. A partir de então, a vontade da vítima passou a ser irrelevante para apuração desta espécie de crime".
Primeira denúncia foi feita sete dias depois do atendimento
Ginecologista de 81 anos é acusado de abusar de paciente durante atendimento
A primeira denúncia foi feita por uma mulher de 24 anos que mora em Teixeira Soares e foi atendida pelo médico no início de fevereiro na cidade vizinha de Irati, na rede pública de saúde.
Ela procurou a delegacia sete dias depois de fazer um exame ginecológico com ele e, em depoimento, justificou o tempo de espera devido ao "extremo abalo emocional" e à tentativa inicial de superar o trauma por conta própria.
"Somente após confirmar com outros profissionais de saúde que os procedimentos realizados não eram normais, e diante da persistência de sintomas como insônia e desespero, é que ela decidiu formalizar a denúncia", diz o delegado.
Além de relatar as "massagens íntimas", a vítima também afirmou que, enquanto estava despida na mesa de exames, o médico atendeu a uma chamada telefônica pessoal que durou cerca de cinco minutos, "o que lhe causou ainda mais constrangimento".
"Além disso, ao analisarmos o prontuário eletrônico da instituição, notamos que o médico não fez nenhum registro clínico com anotação sobre esse atendimento, que levanta graves suspeitas sobre a sua conduta. [...] Diferentemente de atendimentos anteriores realizados por outros profissionais, não houve qualquer registro clínico, anamnese ou solicitação de exames por parte do investigado na data do fato", complementa Dobrychtop. ,
Ao g1, o Consórcio Intermunicipal de Saúde (CIS) Amcespar disse que o médico solicitou afastamento temporário desde o dia 9 de abril.
Como foram as investigações do primeiro caso
Durante as investigações relativas à primeira denúncia, foram ouvidas testemunhas, profissionais de saúde, a vítima e o marido dela, que no dia do crime estava na sala de espera da clínica.
O filho da mulher, que tem cinco anos de idade, também passou por escuta especializada. Segundo a polícia, ele estava com a mãe durante o atendimento, e o médico o deixou virado de costas para que ele não visse o procedimento.
"Diante da gravidade dos fatos e do risco de reiteração criminosa — uma vez que a especialidade exige contato físico íntimo e privacidade —, a autoridade policial indiciou o investigado pelo crime de violação sexual mediante fraude (art. 215 do Código Penal) e representou pela medida cautelar de afastamento das funções públicas e suspensão do exercício profissional do médico", afirmou o delegado.
O pedido da medida cautelar foi reforçado pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) e aguarda decisão do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR).
Em nota, o Conselho Regional de Medicina (CRM-PR), disse que irá instaurar processo de sindicância para apurar o ocorrido.
De acordo com o delegado, o médico não possui histórico criminal e deve responder ao processo em liberdade. No entanto, se outras possíveis vítimas procurarem a polícia, a decisão pode ser reavaliada. Denúncias podem ser feitas de forma anônima à Polícia Civil pelos telefones 197 ou 181.
Entenda as diferenças entre os crimes de violação sexual mediante fraude, estupro, assédio eimportunação sexual
Médico também já foi político
Médico Felipe Lucas já teve carreira política
Reprodução/CIS Amcespar
Felipe Lucas é médico desde 1975. Especializado em ginecologia e obstetrícia, ele consta com o registro ativo no CRM-PR.
Em 2024, ele foi homenageado pelo conselho pelo chamado "Jubileu de Ouro", por completar 50 anos de profissão.
O homem também conhecido por sua atuação política. Ele já foi vereador e prefeito de Irati, nos anos 1990, e deputado estadual duas vezes.
Em 2020, chegou a concorrer ao cargo de vice-prefeito, mas não se elegeu.
O que dizem os envolvidos
Veja, abaixo, as notas enviadas na terça-feira (14), dia em que foi publicada a notícia sobre a primeira denúncia.
Fabrizzio, Camila & Eliza Sociedade de Advogados, que atua na defesa do médico Felipe Lucas
"A defesa do profissional mencionado na recente reportagem esclarece que ainda não houve oportunidade de apresentação de defesa no âmbito judicial.
O profissional nega veementemente qualquer prática irregular ou conduta indevida durante a realização de exame ginecológico de rotina, destacando que sua versão dos fatos será apresentada no momento adequado, perante a Justiça.
Todos os esclarecimentos serão prestados no processo judicial, que é o ambiente apropriado para análise técnica e imparcial.
A defesa confia no pleno esclarecimento da verdade".
CIS Amcespar, consórcio público de saúde
"O CIS Amcespar informa que cooperou plenamente com as investigações conduzidas pela PCPR, disponibilizando todos os registros institucionais solicitados, incluindo o prontuário eletrônico pertinente. A instituição não compactua com qualquer conduta que viole a dignidade, a integridade física ou os direitos das pessoas usuárias de seus serviços.
Em respeito ao devido processo legal e à presunção de inocência assegurada constitucionalmente ao investigado, de igual forma a não exposição da vítima em situação depreciativa, esta instituição se abstém de antecipar juízo de valor sobre o mérito da ação penal em curso. Contudo, reafirma seu compromisso com a adoção de medidas administrativas e protocolares necessárias à garantia da segurança e do bem-estar de todos os usuários.
O CIS Amcespar até o momento não foi intimado, ou citado".
Conselho Regional de Medicina (CRM-PR)
"O Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) informa que está acompanhando o caso e que irá instaurar processo de sindicância para apurar o ocorrido. Caso comprovada conduta violadora das regras éticas, as sanções previstas na Lei de criação dos Conselhos de Medicina vão desde advertência confidencial, podendo chegar à cassação do exercício profissional, a depender do grau de culpa e da gravidade das consequências apuradas.
Conforme estabelece o Código de Processo Ético-Profissional (Resolução CFM nº 2.306/2022), as sindicâncias e os processos ético-profissionais tramitam sob sigilo processual, garantindo às partes envolvidas os direitos constitucionais ao contraditório e à ampla defesa.
Em relação à informação sobre eventual pedido de suspensão do exercício profissional por autoridade policial, o Conselho esclarece que, até o momento, não foi formalmente comunicado sobre o tema. Ressalta, ainda, que cumpre rigorosamente todas as decisões judiciais de que venha a tomar ciência."
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